O ano começa com 81,35% dos maceioenses endividados, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pelo Instituto Fecomércio AL em parceria com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O percentual de janeiro revela um aumento de 4,2 pontos percentuais (p.p.) na variação mensal e de 3,55 p.p., na anual.
Os números demonstram coerência com a pressão sazonal típica do início do ano, quando muitas famílias ajustam as finanças. “Janeiro é, historicamente, um mês de reorganização do orçamento doméstico, marcado pela concentração de despesas obrigatórias, como impostos, material escolar e mensalidades educacionais, e pela ausência de rendas extraordinárias observadas em dezembro”, destaca o assessor econômico do Instituto, Lucas Sorgato.
A alta do endividamento indica que o crédito voltou a desempenhar papel central no orçamento. “Esse comportamento rompe temporariamente o patamar de relativa estabilidade observado no final de 2025 e sugere que o crédito vem sendo utilizado não apenas para consumo, mas também como mecanismo de absorção de despesas concentradas e de recomposição de liquidez”, explica o economista.
Aumento teve como fator a aquisição de novas dívidas
Se por um lado aumentaram as dívidas, por outro caiu a inadimplência: o percentual de famílias com contas em atraso caiu para 30,3%, em janeiro. Segundo Sorgato, isso indica que o aumento do endividamento ocorreu majoritariamente por meio de novas dívidas, ainda dentro do prazo de pagamento, e não por agravamento imediato do atraso. Para o comércio, esse movimento traz um alívio de curto prazo, ao reduzir o risco imediato de calote, mas sinaliza uma possível transferência do risco para os meses seguintes, caso a renda não acompanhe o aumento das obrigações assumidas.
A pesquisa do Instituto Fecomércio demonstra, também, que o grupo de famílias que declara não ter condições de pagar suas dívidas – o superendividamento-, ficou em torno de 8% e se concentra mais nas famílias que ganham até 10 salários mínimos (sm), mesma faixa que registrou 9,4% como percentual dos que não terão condições de pagar as contas. Ainda nessa faixa, o endividamento chegou a mais de 82%, enquanto nas famílias de renda maior ficou em 72%. As contas em atraso alcançam 32,10% no grupo de renda mais baixa e 6,10% na renda mais alta.
O uso do cartão de crédito segue em alta, respondendo por 91,14% das dívidas. E como o endividamento pode ocorrer de outras formas, recursos como crédito pessoal (12,74%), carnês (22,53%), financiamento de carro (5,01%) ou de casa (3,95%) aparecem no levantamento.
Ante a todo esse contexto, o economista ressalta que, para o comércio de bens e serviços, o cenário pede cautela: “vender a prazo continua sendo importante, mas é fundamental acompanhar de perto a capacidade de pagamento das famílias, incentivar renegociações e evitar um excesso de crédito logo no primeiro trimestre, quando os efeitos do endividamento de janeiro ainda estão sendo sentidos”, orienta.